
(Pelo Espírito Lauriany d’Abadia Fetry)
O canto que um dia cantei, era pleno de beleza, satisfação, harmonia…
Mas chegou certo dia, em que tudo começou a ficar bem estranho…
Minha voz, deliberadamente vibrava em tons diversos, em um desarmonioso desacerto deste imperdoável descompasso. E sem compreender o que eu estava ouvindo e sem entender o porquê, não conseguia ter controle sobre esta situação, agravada pelas crises de tosse provocadas pela minha própria respiração. Estas crises que chegavam a quase me roubar os sentidos, pela interrupção da oxigenação nessa tosse sem fim, neste mal estar inicialmente ruim que machucava muito minha garganta, mas minha maior preocupação era com minhas cordas vocais.
E assim foram dias de preocupação e angústias por não conseguir cantar o canto que trazia alegria e cor à minha alma, à minha vida.
Então foi necessário passar por uma avaliação médica, e qual não foi minha surpresa?!
Após avaliações e exames médicos, um nódulo em minha faringe que seria preciso ser retirado.
Passaria por cirurgia e o que eu nunca pensei, realizar algo assim, na garganta. E agora, o que aguardar de tudo isso? Diante da recomendação mais dolorosa: é preciso que fique sem cantar, e falar o mínimo possível, até a cirurgia para retirada do nódulo. Foram dias de clausura, quanta tristeza! Imensa apatia me consumia…
É chegado o dia da cirurgia. Naquela Manhã eu cantei, e para minha surpresa e alegria minha voz me acatou, nas tonalidades e gorjeios que ousei. Fiquei tão feliz! Me senti preenchida e satisfeita, pelo canto e pelo encanto que inesperadamente senti quando minha voz vibrou vida em mim… Me aproximando, me senti na presença de Anjos de Deus! E esta também foi outra grande surpresa.
Então fui animada com muitas esperanças para a cirurgia, desejando acreditar que seria algo tão simples como a retirada de um cisto sebáceo. Não disse nada aos médicos sobre ter cantado. Foi importante demais para mim, realimentando meus sonhos. E com certeza receberia uma bronca, talvez merecida, mas que empalideceria a força do folego adquirido com aquelas breves degustações de minhas prediletas canções.
Eu, naquele tempo, eu estava com 23 anos, então o otimismo me sorria e eu transbordava convicções.
Essa cirurgia na verdade culminaria em biópsia, mas o que poderia ocorrer de tão ruim se eu estava cantando como sempre?
Após a cirurgia, me mantive conforme as recomendações médicas, inclusive com relação a falar pouco, quando na verdade o que me recomendaram, foi bem taxativo: nada falar, manter silêncio total. Nem preciso mencionar sobre o cantar, não é mesmo?
E assim se deu até o dia do retorno médico, os resultados dos exames da biópsia já haviam sido entregues ao meu médico.
E na noite que antecede a consulta, pouco consegui dormir naquela noite, acordava a todo instante, preocupada com o horário, olhando apressadamente o relógio…
Estava muito ansiosa e a desculpa era… Receio de perder a hora.
Então acordei exausta e não conseguia pensar em outra coisa que não fosse a consulta médica daquela manhã, alimentando esperanças pelo imenso desejo de voltar a cantar…
Chegando na clínica, muitas pessoas na sala de espera, mas eram vários médicos que atendiam naquela clínica, minha expectativa era de ser logo atendida, seria um suplicio se tivesse que muito aguardar.
O tempo parecia não passar, quando desejamos que ele galope.
Até que é chegada minha vez e…
Não foi nada como idealizei…
Recebi o veredito de estar acometida pela doença, que poderia roubar por definitivo todos os meus sonhos e projetos. O tratamento a princípio, quimioterapias, após três messes iniciaria as sessões de Radioterapia.
Sai tão transtornada do consultório, pela possibilidade de não mais cantar, que não sabia fazer outra coisa que não fosse chorar.
A tristeza era tamanha, que não conseguia comer engolir ou dormir, nem banho queria tomar.
Se não fosse para voltar a cantar, preferiria morrer do que ter que viver de meus próprios silêncios, dessa impossibilidade de não mais poder ouvir os sons, que minha voz, sempre soube maravilhosamente expressar.
Por mais de dez dias, aguardando na escuridão de meu recôndito silêncio, a única coisa que conseguia fazer era chorar, chorar, chorar.
Meus pais, estavam apavorados diante destas questões intempestivas. Tudo era novo para eles, e o mais perturbador que era um ‘novo ruim’. Eles não sabiam mais o que fazer, eu sentia uma imensa dó deles, mas não conseguia sair da minha dor e do meu desespero. Talvez quem olhasse para mim, enxergasse apenas uma garota mimada e egoísta. E talvez eu até fosse! Mas eu só quero minha vida de volta. Como é importante e essencial para mim, cantar. Porque será que Deus estava agindo assim comigo? Seria castigo, punição? Não consigo compreender o que eu poderia ter feito…
Retornando ao médico para avaliar o pós cirúrgico, recebi dele uma chamada de atenção, havia perdido 4 quilos, por ter me enclausurado no vazio de minha solidão.
Difícil tentar explicar, como a música me preenche e me proporciona o bem estar de estar viva e de me sentir múltipla. Cantar, sentir a música, ouvir a minha voz me faz sorrir sozinha, feito boba alegre. Consigo nesse êxtase sentir um imenso prazer pelo viver, sentindo a vida vibrante em mim. Não desejo nem pensar como seria viver sem música, sem encantos… Com certeza para mim não seria um viver.
Diante da primeira quimioterapia, meus pais me acompanharam mas, nem isso naquele momento me confortava. Me sentia no percurso do que poderia vir a ser meu calvário. Intimamente minhas emoções eram bem semelhantes aos desatinos que um luto inesperado e indesejado e tudo de mais conturbado que este poderia proporcionar. Eu estava diante daquela situação que me fazia sentir-me morta em esperanças, por não mais poder expressar o que tanto sempre amei, cantar.
Então nessa psicosfera iniciei meu tratamento e após uns 30 minutos ou 40 minutos, começo a esboçar reações de um choque anafilático que me retira abruptamente da vida encarnatória, selando meu óbito de imediato. E mesmo estando entre médicos e enfermeiros, em hospital de alto padrão, nada garantiu minha ressuscitação.
Hoje como lamento minha atitude! Hoje percebo como fui exclusivista desejando manifestar apenas minha egolatria. Como lamento a minha frieza e indiferença perante a dor de meus pais, como fui leviana, quanta empáfia, soberba, do que valeu minha insolência a não ser proporcionar uma dor ainda maior, e profundas perfurações naquelas almas tão desvalidas? Como consegui ser tão insensível neste meu pedantismo?
Eu naquele momento só desejava, só me interessava por enxergar minha dor e a revolta pela situação que contrariava meus planos e sonhos, do modo como idealizei e projetei. E para mim, neste meu egocentrismo, tudo haveria de ocorrer de acordo com meu querer e minha vontade… Quanta indolência que só percebi tardiamente. E o quanto essas emoções tão alucinadamente desvairadas comprometeram ainda mais minha situação no pós-morte. Quantos anos desnecessários de escuridão eu vivenciei em razão da minha vaidade, de meu orgulho ferido…
Afinal, todos concordavam e acredito que se não fosse por unanimidade faltaria bem pouco, quando consideravam que eu expressava “A Melhor” voz e a melhor interpretação musical. Então se eu era tão talentosa, com um dom tão raro, porque fui tolhida de continuar, de concluir meus sonhos e projetos?
Mas a tragédia não para por aí, este meu padrão vibracional me arrastou para o mais profundo e obscuro período dos umbrais. A moça bonita, bem criada, culta, bem vestida, com voz de rouxinol… Em questão de segundos esta Belezura toda que fui euzinha, tornou-se uma horripilante andarilha em frangalhos, uma irreconhecível miserável flagelada pelo próprio ego, cheio das razões perdidas.
Somente estando no Plano Espiritual para constatarmos o que é de fato nossa realidade, me refiro ao corpo fluídico moldado pelo campo vibracional de cada momento. Este sim é nossa verdadeira realidade e como tal, um verdadeiro dossiê de nossa verdadeira natureza e intenções. E o que este, ou melhor, o que nós mesmos nos proporcionamos.
Principalmente quando nos enquadramos no “suicídio indireto” pela convulsão de sentimentos e emoções tóxicas, que ocorreram deliberadamente por mim. Eu não morri vitimada pelo câncer, antes fosse, pois teria sido digno e honroso o meu sofrer. Mas infelizmente nesta minha última encarnação, o meu desencarne teve por “causa mortis” aquele meu surto psicótico, onde eu me encontrava altamente encolerizada, conturbadamente paranoica, cujas emoções delirantes não só comprometeram meu juízo, bem como, as reações químicas e elétricas de meu organismo de então que foram desreguladas, adulterando e promovendo ocasionalmente o tal choque anafilático, sem nenhuma predisposição orgânica e cuja ocorrência nem se cogitou para ser uma possibilidade, para aquela programação encarnatória. Hoje quanta vergonha sinto daquela moça tão meiga e aparentemente tão distinta que se permitiu tornar-se uma louca ensandecida em quase total demência.
E por estas questões que descrevo, impossível não ter sido atraída ao umbral dos pérfidos egoístas e por lá permaneci algumas décadas.
Enquanto isso meus pais viviam em profundo desalento, não conseguiam lidar com a dor de minha ausência. E o ambiente daquela Casa que era tão glorioso na disposição dos móveis e objetos e pelo circuito dos cômodos; sendo perceptível na psicosfera daquele Lar de outrora, a ambientação vibrante e reluzente que minha ‘Voz’ ao ser entoada imprimia em tons de inebriantes júbilos… Mas, algum tempo após meu retorno para o plano espiritual, aquela Casa, aquele Lar de outrora sofreram drásticas transformações, sendo gradativamente destituídos de seu glamour, com portas e janelas fechadas demonstrando o lúgubre ambiente da psique de seu habitantes.
Minha mãe após minha morte, entrou em depressão profunda, cuja saúde foi agravada pela contínua intermitência de doenças pulmonares, vindo a desencarnar vitimada por tuberculose, 8 anos após meu desencarne. Meu pai, não suportando tamanha tragédia familiar, após a partida de minha mãe, por todas as noites adormecia alcoolizado, os negócios começaram a desandar pela sua ausência na empresa e antes de completar 3 anos da morte de minha mãe, ele se suicidou, dirigindo em alta velocidade se lançou de uma das mais altas montanhas, caindo sobre as pedreiras, ocasionando ainda a combustão do carro e do motorista.
Agora, por estes tempos, após 70 anos de meu desencarne, que poderiam ter sido meu tempo de vida, 93 anos. Somente muito depois de ter conquistado um certo centramento, que vim a saber que não estava predestinada a desencarnar vítima do câncer. Conseguem imaginar qual foi minha reação? Fiquei novamente, mas agora por alguns poucos anos, bem instável em minhas emoções.
E somente agora, vou começar a me preparar para minha próxima encarnação, onde terei por filhos meus pais e mais um caçulinha, cujo vínculo cármico será com meu futuro marido. Mas talvez ainda leve alguns anos, é necessário que meus pais estejam razoavelmente prontos para a nova oportunidade. Eu faço parte da equipe que os auxilia na recuperação. Já choramos muito juntos, agora é momento de nos fortalecermos.
Quanto a música, ainda não sei, penso que não tenha méritos para desfrutá-la nessa próxima encarnação. Afinal, minha Paixão pelo Cantar, foi o motivo de minha queda. E tenho aprendido muito sobre paixões e excessos… sobre resistências e escassez.
Quem sabe essa minha história possa servir de reflexão…
Aproveitem suas oportunidades, cuidem de cada agora.
As oportunidades são tesouros imensuráveis e cada agora são dádivas, que necessitam da melhor de nossas atenções e cuidados. Então semeie afetos com muito amor, sem olhar a quem, lembrando sempre que o protagonista desta encarnação, eu ou você, merecemos nossa melhor presença, na melhor manifestação de quem somos, com todas as nossas virtudes; mantendo o dedicado empenho e determinação.
Tudo na vida, nesse estado de sempre existir, se manifesta a cada momento, em valor indescritível, e o grande avanço é quando conseguimos priorizar o bem-estar, que tem por causa primeira a mansidão da consciência tranquila; e mesmo diante desta conquista, que consigamos nos manter motivados aos nossos aprimoramentos e no dedicado cultivo de cada novo evento, e que sejam bons, alegres e harmoniosos; e assim, estes, serão aqueles alentos tão benfazejos para os dias ou períodos difíceis, turbulentos e complexos.
Então, empenhe-se!
Se não conseguir ser o melhor, nem por isso haverá de ser o pior.
Se o destino não lhe sorrir, nem por isso permanecerás enfezado ou melindrado.
Se não conseguir ser humilde, seja ou busque ser, pelo menos, um tanto resiliente.
A vida é um presente de dádivas! Toda encarnação é um compêndio de bênçãos! Usufrua com respeito, com bom senso e dignidade.
E que assim possa ser, pelo seu infinito existir.
Muito grata pela interação e carinho, foram momentos de muito valor para mim.
Deus abençoe com mansidão, fé e discernimento cada uma de nossas intenções.
Felicidades a todos, um abraço de alma…
da Laurí, a queridinha de meus Pais.





